Paulo Marques
JOÃO ABEL MANTA: O TRAÇO QUE FEZ DA LIBERDADE UMA IMAGEM DURADOURA
João Abel Manta (1928 – 2026) afirmou-se como uma das figuras mais marcantes da cultura portuguesa contemporânea, transformando o desenho e o cartoon político em instrumentos de intervenção cívica e memória histórica. A sua obra, atravessando a ditadura, a Revolução de Abril e a democracia, permanece como um dos mais densos registos visuais do século XX português.
João Abel Manta morreu em Lisboa, aos 98 anos, encerrando uma trajetória singular que cruzou arte, política e consciência crítica. Nascido em 1928, no seio de uma família profundamente ligada às artes — filho dos pintores Abel Manta e Clementina Carneiro de Moura — cresceu entre ateliês, exposições e viagens, num ambiente cosmopolita raro em Portugal daquela época. Este contexto moldou decisivamente a sua visão do mundo e a sua precoce maturidade artística, marcada por um diálogo constante entre tradição e modernidade.
Formado em Arquitetura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, João Abel Manta integrou a geração que procurou renovar os códigos culturais portugueses no pós-guerra. Como arquiteto, participou em projetos relevantes do modernismo nacional, como o conjunto habitacional da Avenida Infante Santo, distinguido em 1957, e a sede da Associação Académica de Coimbra, revelando um rigor formal e uma inteligência espacial que encontrariam paralelo no seu desenho.
Mas seria no território gráfico que encontraria a sua voz mais decisiva. Desde muito cedo associado a círculos oposicionistas ao Estado Novo — chegou a ser detido pela PIDE em 1948 — assumiu o desenho como forma de combate político. A partir do final dos anos 1960, com a colaboração no Diário de Lisboa, tornou-se pioneiro de um novo tipo de cartoon em Portugal: não apenas humorístico, mas profundamente analítico, culturalmente denso e visualmente sofisticado. Num ambiente ainda sujeito à censura, desenvolveu estratégias subtis de sugestão e ambiguidade, transformando o desenho num espaço de resistência.
O seu trabalho atingiria um momento de excecional intensidade com a Revolução de Abril de 1974. Ao longo do processo revolucionário e do PREC, João Abel Manta produziu uma obra gráfica de enorme impacto, acompanhando, quase em tempo real, as tensões, esperanças e contradições do país em mudança. O cartaz “O Povo está com o MFA” tornaria o seu nome indissociável da iconografia da revolução, difundindo-se massivamente como símbolo da aliança entre militares e população.
Apesar dessa associação, recusava rótulos simplificadores. Não gostava de ser reduzido ao “cartoonista da Revolução”, insistindo na autonomia do seu trabalho e na complexidade das suas motivações. O seu universo visual era atravessado por referências eruditas — de Kafka a Jarry, de Daumier a Grosz — combinadas com elementos da cultura popular, numa linguagem que cruzava o grotesco, o simbólico e o satírico.
O período pós-revolucionário marcou uma rutura pessoal. Desiludido com o desfecho político após o 25 de Novembro de 1975, mudou-se para Londres, procurando distância e reflexão. Esse afastamento traduziu-se numa das suas obras mais importantes, “Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar” (1978), um livro sem palavras que constitui uma poderosa reinterpretação visual do Estado Novo. Através de composições densas e perturbadoras, construiu uma narrativa crítica sobre décadas de ditadura, transformando a caricatura em instrumento historiográfico.
Na vida pessoal, João Abel Manta manteve sempre uma postura discreta e reservada. Avesso à exposição mediática, privilegiava o trabalho silencioso e a reflexão. As suas amizades — com figuras como José Cardoso Pires ou José Carlos de Vasconcelos — foram fundamentais para a sua trajetória, não apenas enquanto cumplicidades intelectuais, mas também como espaços de colaboração criativa. Em Londres, viveu num relativo isolamento, mantendo, contudo, uma produção consistente e uma ligação permanente à cultura portuguesa.
O regresso a Portugal trouxe um progressivo afastamento do protagonismo público. A partir dos anos 1980 e, sobretudo, nas décadas seguintes, a sua obra ganhou uma dimensão mais introspetiva, com maior incidência na pintura e no retrato. No Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), cuja identidade gráfica assumiu desde 1981, voltou a demonstrar a sua capacidade de construir, através do desenho, uma verdadeira galeria da memória cultural, fixando figuras como Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa ou Almada Negreiros numa série de retratos intensos e definitivos.
Ao longo das últimas décadas, João Abel Manta consolidou-se como um dos grandes cronistas visuais da sociedade portuguesa. A sua obra não apenas acompanhou a história — ajudou a interpretá-la e, de certo modo, a moldar a sua perceção pública. Num país onde a tradição do cartoon político era escassa, a sua intervenção abriu caminho a novas gerações, mantendo-se, no entanto, como referência incomparável pela densidade intelectual e pela complexidade formal.
O legado que deixa é vasto e profundamente enraizado na identidade cultural portuguesa. Entre a arquitetura e o desenho, entre a sátira e a reflexão histórica, João Abel Manta construiu uma linguagem própria que continua a interpelar o presente. Se a Revolução de Abril encontrou palavras que a narram, encontrou também imagens que a fixam — e poucas terão sido tão duradouras quanto as que nasceram do seu traço.