Vivi meses dentro de hospitais de adultos, mas sobretudo de crianças. Meses a aprender o som das máquinas, o ritmo das rondas médicas, a geografia dos corredores às três da manhã, os olhares de quem chora mas faz que ri. Conheço o sofrimento dos utentes. Conheço melhor ainda o dos pais: o medo contínuo, a vida suspensa. No meio disso tudo, há uma preocupação que parece pequena mas corrói todos os dias: o lugar para deixar o carro, o preço de o deixar lá. Todos os dias recebo mensagens de pessoas que passam semanas, meses, alguns até anos, em hospitais. Alguns fazem contas de cabeça antes de subir ao quarto do filho. Eu acho que a doença é despesa suficiente.
Quem vai de carro ao hospital com um filho vai porque precisa: leva sacos, roupa, brinquedos, documentos, comida. Vai porque sai a meio da noite. Vai porque volta a correr. Eu voltei algumas vezes. Eu guardei muitas vezes no carro aquilo que era a nossa casa, tudo aquilo que tínhamos. Era preciso mudar de quarto: o carro estava ali para servir de armazém. Aquela, durante algum tempo, é a nossa casa, o lar possível. Muitas famílias vêm de longe. Chegam cansadas, ficam. Só um dos pais pode dormir com a criança. O outro fica fora. Conheci alguns que dormiram no carro. Era o que havia.
Percebo que os parques têm custos. Há manutenção, segurança, organização, pessoas que têm de receber salários. Sei que tem de ser feito dinheiro. Não escrevo isto com desconhecimento da realidade, com um romantismo sem sentido. Não escrevo para mim: felizmente consigo suportar os custos. Escrevo com uma verdade: o hospital público não é um shopping. Quem vai lá não é um cliente; é alguém em situação de fragilidade. Por favor, encontrem justiça: baixem preços; criem tarifas diferentes para pais de crianças internadas, doentes crónicos, tratamentos prolongados; criem tectos verdadeiramente sociais; criem passes familiares para internamentos longos; permitam a gratuitidade a quem precisa mesmo dela. Não é nada de revolucionário. Não vos peço caridade. Olhem para estas pessoas como habitantes temporários de um lugar onde ninguém escolhe estar. Quem está ali está a pagar o suficiente, mesmo quando não passa na máquina automática.
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