quarta-feira, 19 de julho de 2023

Na ausência de aumentos salariais aumentou o crédito ao consumo

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Na ausência de aumentos salariais aumentou o crédito ao consumo

A inflação não é sinónimo de redução de necessidade de consumo. Essa mantém-se e as dificuldades aumentam já que os salários não acompanham o aumento do custo de vida. Na ausência de aumentos salariais, a banca esfrega as mãos com o crédito.

Os dados são do Banco de Portugal e demonstram que o crédito ao consumo atingiu o recorde de 3,2 mil milhões de euros nos primeiros cinco meses do ano. À vista desarmada poderia parecer apenas mais um dado, mas a questão ganha particular relevância quando se conclui que tal aumento do recurso ao crédito está umbilicalmente ligado ao facto dos salários reais não terem aumentado.

Este aumento do recurso ao crédito para o consumo, para além de indicar uma dificuldade estrutural para colmatar algumas necessidades, indica também que está a ser intensificado o modelo rentista de funcionamento económico e a aceleração da financeirização da economia. A receita é simples, os bens aumentam, as pessoas pedem crédito, as instituições prestadoras ganham com os juros e as especuladoras (que em parte estão ligadas ao sistema financeiro) ganham também. Quem perde são as pessoas já que ficam anos a pagar o crédito enquanto os seus salários aumentam de forma anémica, sendo necessário, posteriormente, recorrer novamente a crédito. Dá-se então o efeito «bola de neve». 

Relativamente aos primeiros cinco meses sabe-se que os bancos e financeiras emprestaram quase 3,2 mil milhões de euros, o valor mais elevado desde, pelo menos, 2013. Relativamente ao período homólogo de 2022 isto representa um aumento de 1%, mas significa também que passado um ano do início da guerra, só foi consolidado a transferência de rendimentos do trabalho para o capital.

Segundo os dados do Banco de Portugal o crédito para a aquisição de automóvel e o crédito concedido através do cartão de crédito e outras facilidades registaram crescimentos homólogos de 7%. No caso do primeiro, no crédito para a compra de carro, as famílias pediram quase 1,16 milhões. Relativamente ao cartão de crédito, os empréstimos por esta via ascenderam a quase 550 milhões e o crédito pessoal, que conta para quase metade do crédito aos consumidores, registou 1,47 mil milhões de euros no mesmo período, com os outros créditos pessoais. Neste campo o crédito pessoal com finalidade da educação, saúde, entre outros, aumentou 4%.

Importa recordar que em Abril de 2023 a Sonae fez um acordo estratégico com o Bankinter vendendo-lhe 50% da Universo com o objectivo de criar um «operador líder no crédito ao consumo em Portugal». Antes dos dados do Banco de Portugal, mas com clara noção das dificuldades sentidas pelas famílias, Claudia Azevedo teve a leitura de mercado de saber que o melhor produto para continuar a ganhar dinheiro são os juros dos créditos.

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