"Mário Viegas morreu em Lisboa num 1 de abril, o de 1996. Há datas que parecem escritas por um dramaturgo com sentido de ironia cruel, como se a própria morte tivesse decidido ensaiar uma última réplica em falso. Passaram décadas e persiste uma suspeita íntima, quase infantil, de que tudo não terá passado de um equívoco cénico, de que a cortina desceu apenas para preparar um regresso mais fulgurante. Mas não. Desta vez, o silêncio não foi um intervalo. Curiosamente, a data do 1 de abril, Dia das Mentiras, confere à sua partida uma ironia cósmica, como se o mundo brincasse com a verdade, recusando-a, e permitindo-nos acreditar por um instante que Mário Viegas poderia, afinal, nunca ter morrido.
Escalabitano, filho varão de uma linhagem de farmacêuticos e de uma mãe formada em grego e latim, pioneira no ensino da literatura para crianças, trazia consigo essa rara confluência de ciência e verbo, de matéria e espírito. Tinha 47 anos quando deixou de habitar o palco visível, mas a sua presença continua a insinuar-se como um eco persistente nos bastidores da memória. Era intenso, feroz, irreverente, pertencente a uma espécie de confraria secreta de provocadores. Desconcertante, agitador, indomável, estruturalmente anarca. ..." (Luis Galego)
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