Alguém que me explique, com jeitinho e muito carinho, como é que vai funcionar essa cena do vasilhame a dez cêntimos a peça, porque eu, mesmo imbuído do maior espírito de condescendência, está a cheirar-me a mais uma habilidade em favor exclusivo das grandes superfícies.
Portanto, eu compro uma litrada de Água de Luso. Pago dez cêntimos em cima do preço ao vendedor. Levo a garrafa para casa e sirvo-me dela com luvas de pelica para não danificar plástico, rótulo e tampa, pois em caso contrário, lá se foi o presuntivo reembolso.
Um dia destes passo pela maquineta e, se não houver à minha frente uma fila de desesperados, introduzo a vasilha - atenção , sem qualquer líquido - e recebo uma senha de dez cêntimos… para comprar produtos na tal grande superfície ou, se pretender o dinheiro de volta, procuro uma fila onde devolvam os dez cêntimos…
Ah, mas pisei inadvertidamente a garrafa, rasguei o sacrista do rótulo ou não tive tempo a perder na fila da maquineta… e lá se foram os dez cêntimos.
No meio disto tudo, uma questão me sobressalta: quem paga o meu trabalho? E o combustível das deslocações?
Entretanto, como não poderei deslocar-me de cada vez que esvazio uma garrafa, estou a pensar ir ao IKEA (passe a publicidade) para adquirir um guarda-fatos ou algo de dimensão equivalente para aconchegar o querido vasilhame até uma oportuna deslocação à maquineta.
Espero que os bichinhos de prata, pelo caminho, não me comam os rótulos, claro. Talvez com umas bolas de naftalina, que no amealhar é que vai o ganho.
Depois, contrato uma firma de transportes para levar o acervo do vasilhame arrecadado.
Convém não esquecer que, lá para trás, os “meus” dez cêntimos estarão a viajar para algum paraíso fiscal até novas ordens.
Filosoficamente, esta não será uma medida pedagógica para alertar o cidadão para os problemas ambientais, mas sim mais uma medida pelintra que institucionaliza a pelintrice e deixa mais uns trocos em mãos alheias. Pelo menos, até prova em contrário.
Agora, divertido vai ser assistir aos ”vip” a que temos direito na fila do vasilhame, para os correspondentes reembolsos…que, isto, a vida está difícil para todos.
Nota - Há muitos anos que separo o lixo produzido cá por casa sem que um qualquer governo se tenha lembrado de me atribuir um qualquer louvor. Nem que fossem dez cêntimos.
Sem comentários:
Enviar um comentário