Sou, sempre fui e sempre serei defensor da reciclagem, da responsabilidade ambiental e do princípio de que todos devemos fazer a nossa parte! Apenas tenho é cada vez mais dificuldade em compreender o modelo escolhido para o sistema Volta...
Ao comprarmos uma bebida numa embalagem abrangida por este sistema, pagamos obrigatoriamente mais 10 cêntimos, quer seja por uma pequena lata ou por uma garrafa de água de litro e meio! De seguida, para recuperarmos aquilo que já investimos, a responsabilidade passa simplesmente para cada um de nós! Guardar as embalagens sem as danificar, arranjar espaço para as armazenar, transportá-las e procurar um ponto de devolução disponível e funcional! É um processo que para muitos de nós será apenas mais uma simples tarefa como quando vamos às compras, mas que já não será assim tão simples para um idoso, para alguém com mobilidade reduzida, para quem não possui automóvel ou para quem vive longe de um ponto de devolução!
Podemos, no entanto, continuar a fazer exatamente aquilo que durante anos nos ensinaram ser ambientalmente correto, que é, separar a embalagem e colocá-la no ecoponto amarelo! Cumprimos ambientalmente, e essa embalagem continua a seguir para reciclagem, mas os 10 cêntimos que pagámos inicialmente nos são devolvidos...
Mais curioso ainda é, que os depósitos que não são reclamados no sistema Volta não desaparecem, constituindo uma das fontes de financiamento previstas para o próprio Sistema de Depósito e Reembolso. É legal e está previsto, mas o facto de ser legal não impede qualquer um de nós de questionar se este é, efetivamente o modelo mais justo!
Também curioso, é o sistema abranger determinadas embalagens com volumetria inferior a 3 litros e já existirem no mercado marcas que optaram por formatos de 3,1 litros, ficando fora do sistema! Ou seja, uma embalagem pode estar sujeita a depósito e outra praticamente idêntica, apenas porque ultrapassa aquele limite, não estar, o que ambientalmente, possui uma diferença irrisória...
Aumentar a reciclagem e a responsabilidade ambiental é importante, mas também será legítimo questionarmos um sistema em que pagar é imediato, enquanto recuperar esse dinheiro exige espaço, conservação das embalagens, transporte, deslocação e disponibilidade de um ponto de recolha. Não creio que estaremos a avaliar corretamente o impacto deste sistema sobre quem tem mais dificuldades em cumprir todo este circuito...
Também não me interessa alimentar teorias sobre quem "anda a ganhar dinheiro com isto"! A SDR Portugal é uma associação sem fins lucrativos e os seus órgãos sociais não são remunerados pelo exercício desses cargos, embora exista, naturalmente, uma estrutura profissional, com custos e trabalhadores remunerados. Apenas gostaria que este sistema e estas pessoas conseguissem demonstrar que o benefício ambiental obtido justifica o custo, a burocracia e as desigualdades que transfere integralmente para o consumidor!
Reciclar, sempre! Mas defender o ambiente não nos obriga a aceitar sem discussão qualquer modelo criado em seu nome! Aliás, talvez isto seja precisamente o contrário...
Entretanto, com tudo isto, criámos também um novo pequeno "mercado" em espaço público! Embalagens que antes não tinham qualquer valor monetário passaram a valer 10 cêntimos, e já não é propriamente invulgar vermos quem as procura dentro dos caixotes, ecopontos e contentores, por vezes deixando para trás aquilo que não vale 10 cêntimos espalhado à sua volta...
Não censuro quem procura os 10 cêntimos, sobretudo se deles precisa e ambientalmente conclua o processo! Apenas acho curioso que, para tornar o país mais responsável, tenhamos conseguido acrescentar mais este interessante efeito secundário ao sistema Volta...
Isto (não) será certamente economia circular!
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