terça-feira, 27 de outubro de 2026

Há TENDAS e há TENDAS!!!!

 


12 h 
A hipocrisia do poder mede-se pela distância a que empurra o desconforto. Quando se trata de protestar no Rossio, no coração da cidade, erguem-se tendas como símbolo de denúncia e o poder apressa-se a invocar um decreto caduco de 1974 — anterior à própria Constituição — para as retirar de imediato do campo de visão. No centro turístico e aos olhos das câmaras, a tenda é tratada como uma afronta intolerável à ordem pública.
Contudo, a escassos quilómetros dali, debaixo de viadutos frios e na penumbra das artérias periféricas, dezenas de tendas amontoam-se noite após noite. Aí já não incomodam ninguém; aí já não há decretos com pressa de agir nem despachos urgentes. Enquanto estiverem escondidas da rota dos turistas e dos gabinetes ministeriais, a miséria e a crise habitacional toleram-se sem escândalo.
Não são as tendas que mancham a paisagem: é a violação diária do direito à habitação consagrado no artigo 65.º da Constituição. Se cumprissem de facto o texto constitucional que juraram defender, não precisavam de recorrer a leis velhas para esconder protestos, porque essas tendas — tanto as da luta como as da sobrevivência — simplesmente deixariam de ser necessárias.

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